Dinho Oliveira – Gogó da Ema Discos

Entrevistador – Dimas Marques

Vídeo e Transcrição – Dimas Marques

Olá, amigos, mais um dia primeiro e vamos mergulhar em mais um capítulo da história do vinil em Alagoas, dessa vez com um personagem dos mais importantes, Dinho Oliveira, que foi técnico de gravação da saudosa gravadora Gogó da Ema, sendo um dos que ajudaram na construção do estúdio, permanecendo até o seu fim. Ele foi o responsável pela gravação da grande maioria dos Lp’s lançados pelo gravadora/selo. Além disso, Dinho já foi roadie de algumas bandas de baile nos anos 70 e 80, tendo participado do início do Grupo Threvus, e foi o responsável pela melhoria nos equipamentos de áudio em Maceió, sendo hoje uma grande referência no assunto.

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Dimas Marques – Onde você nasceu e cresceu?

Dinho Oliveira – Eu nasci em Maceió, no Bom Parto. Meu pai e minha mãe trabalhavam na fábrica Alexandria, e eu passei até os cinco anos no Bom Parto. Depois, quando a fábrica fechou, eu fui morar lá no final da Rua Goiás, chamada Rua Albuquerque Lins, mas era muito perto do Bom Parto, era só descer a ladeira e já era Bom Parto, então eu não perdi o contato com meus amigos. A gente jogava futebol na igreja, jogava no campo na beira da lagoa, no aterro. E quando eu fui morar lá em cima, no Farol… Eu já era doido por música, e meu primeiro contato foi fazer… Pegava uns, naquele tempo se chamava copo, mas era caneca, que tinha umas coisinhas de pegar de lado, e eu amarrava na cerca, que lá em casa era umas cercas de madeira de varinha, e eu pegava os fios do meu pai e fazia uma instalação, como se fosse um hi-fi de rua, e meu primo ia lá pra casa, pegava uma caixa de fósforos de madeira, quebrava e fazia uma espécie de instrumento e batia, e eu fazia como se estivesse captando aquilo e fazendo uma festa. Quando eu tinha uma faixa de uns 12/13 anos, conheci um rapaz de uma marcenaria do pai de um amigo meu, que gostava de áudio e eletrônica, construía baixo, guitarra… E ele me ensinou a mudar a polaridade de um alto-falante pequeno e virar um microfone, e me ensinou a abrir um rádio que tinha lá em casa, e procurar onde fazia o ruído, que eu poderia botar um cabo e falar, só que nessa posição eu não sabia o que era a fonte do rádio e o pré-amplificador, aí eu meti o dedo logo na fonte e levei um choque pesado. Aí eu fiquei uns dias cabreiro de tentar, depois abri o rádio, tentei e acertei, botei o fio, falou e pronto. Aí eu ficava fazendo… Toda noite um colega meu fazia um espécie de programa de rádio, onde ele fazia locução e humorista, botava um radinho na cadeira e a gente ficava brincando, eu ficava operando aquele microfone, e foi meu primeiro contato com som.

DM – Isso foi em que ano mais ou menos, esse primeiro período brincando com os amigos?

DO – Foi nos anos 60.

DM – E quando você começou a trabalhar com som?

DO – Mais ou menos em 70/72, eu tinha um primo que era músico, tocava contrabaixo, Eurílio, que tocou na Big Banda, tocou no Threvus… E ele estava no Rio de Janeiro, aí voltou, e eu era fascinado pra colar com ele, a gente foi criado junto, era como se fosse meu irmão, e a minha mãe e o meu pai, mais o meu pai, queria afastar, músico pra ele não valia nada, eu ouvia toda aquela discriminação, e quanto mais ele discriminava, mais eu me apaixonava pra estar junto com ele, que sabia que eu era doido por som, aí teve uma vez que a gente conversando, ele chegou e disse que tinha uma vaga, a gente em chamava muito banda, chamava mais conjunto, “Dinho, tem uma vaga lá no conjunto, carregar as caixas e ligar o som, que é ligeirinho, agora, pelo amor de Deus…” Papai era tio dele e padrinho, “… Não diga ao padrinho que fui eu que chamei não”. Aí no outro dia de manhã, eu fazia alguns trabalhos com meu pai, ele era mestre de obra, e eu ficava apontando algumas coisas pra ele de negócio de trabalhador, embora tinha cada coisa da minha vida com esse pessoal da construção interessante. Aí no caminho eu virei pra ele e disse: “pai, eu vou trabalhar num conjunto”, aí ele olhou pra mim e mandou logo eu voltar pra casa, “vai, seu maconheiro”, eu olhei pra ele e voltei pra casa, aí parti pra o conjunto, que era o Threvus, parece que naquele tempo era The Bigs e tinha mudado o nome pra Thevus, era o Eurílio, meu primo, o Arthur, o Giuseppe, que mora em Pão de Açúcar, e é o tio do Bozo, eu vi o Bozo pequenininho, eu botava ele no braço, e o Toni Batera. Era os quatro. E trabalhava eu e o Wellington, a gente montava e ligava o som. Quando eu cheguei, meu disseram onde era o +A, que os amplificadores eram valvulados, tinha +A, +B, tinha que ligar o +A primeiro e dar um tempinho pra aquecer, depois ligava o +B, e eu olhei pra os cabos das caixas e achei diferente, porque os cabos que eles ligavam nas caixas eram do mesmo tipo de cabo do microfone, tinha alguma coisa errada, não podia ser assim. Uma vez um rapaz, com uma ou duas semanas que eu estava, foi lá consertar um amplificador, e eu perguntei a ele, que não gostava muito de responder nada, aí respondeu umas besteiras, e eu fiquei de contestar, aí peguei um cabo normal, acho que eu não tinha cabo PP, polarizei e botei pras caixas, aí achei que o som ficou melhor, eles acharam que não podia, mas eu botei e ficou legal. Eu comecei a mexer nas cosias, tinha uma mesinha pequena, de oito canais, que ficava em cima do amplificador, e eu comecei a equalizar o som, aí o pessoal começou a gostar tanto, que tiraram a mesa do palco e colocaram em frente, porque aí eu ouvia as duas caixas, que naquela época chamava de caixas picolé, porque era na vertical, e rolava todas as frequências, mas não tinha um grave legal. Aí a gente foi melhorando as coisas, comecei a botar microfone na bateria e a coisa foi ficando legal. Quando começou a soar melhorzinho, eu estava fazendo uma festa na Portuguesa, e chegou um rapaz moreno, era o mestre Ivanildo Rafael, chegou por trás de mim perguntando se eu era o Dinho, e querendo falar comigo quando desse o intervalo, aí ele disse: “olha, eu vou comprar uma mesa de som, que é a primeira que tem aqui em Alagoas…” Na época de 12 canais, “…E não tenho quem opere, e disseram que você tinha condições de operar”. Aí eu acertei com ele, falei com o menino do Threvus e fiz a minha transferência.

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DM – Você ficou quanto tempo no Threvus?

DO – No Threvus foi uma faixa de 5/8 anos.

DM – Ficou mais ou menos de 70 a 78, quase toda a década de 70.

DO – Foi.

DM – Você lembra como era esse período com a banda?

DO – A gente tocava muito no interior, a gente era mais Alagoas, e entrava em Pernambuco também. A gente tinha umas três tocadas por semana, sexta, sábado e domingo, às vezes quatro… Era essa pegada. Mas teve um tempo que o Threvus fez muito sucesso, e tocava muito, foi um tempo muito bom, eu aprendi muita coisa.

DM – Você estava na banda quando eles foram apoio no Festival do Compositor Alagoano?

DO – Não.

DM – Então você deve ter ficado até 76, porque o festival foi em 77, e o Lp saiu em 78.

DO – Foi, não estava mais.

DM – Antes de começar sua carreira profissional, você frequentava os bailes e festas nos anos 60 na sua adolescência?

DO – Não. Éramos quatro, dois meninos e duas meninas, e na época morávamos num lugar, que hoje em dia seria chamado de favela, que não existia favela naquele tempo, pelo menos não aqui em Maceió, e a gente era muito trancado em casa, eu era o mais aberto, gostava de fugir mais, de fazer as coisas do jeito que eu queria, tinha muitas amizades na rua. Eu lembro, quando era pequeno, que a gente ia pra o Geraldo Lopes Show, que tinha na Rádio Difusora, ali nos Martírios, todo sábado de manhã ao vivo, e tinha uma banda que tocava, que eu lembro do Marcus Vagareza tocando e cantando. Eu adorava, meu sonho sempre foi estar perto. Agora no Threvus eu consegui… Eu era fascinado por contrabaixo, e meu primo tocava contrabaixo, aí eu fui tentar aprender, e um certo tempo eu fiquei pouco, eu comecei a… Eu gostava de todos os instrumentos, depois fui tentar aprender bateria, eu era apaixonado por todos os instrumentos, começava a ouvir os discos e procurava os instrumentos, por que era naquele ritmo, por que estava ali, por que estava lá, naquele tempo o estéreo estava na onda, tinha a CBS, Renato e Seus Bluecaps usavam muito aqueles efeitos de um canal pra o outro, a guitarra e o baixo ficava de um lado, solo do outro, e eu ficava fascinado por aquilo.

DM – E como era com o Ivanildo Rafael?

DO – Na Big Banda a gente fazia os carnavais da Fênix, aí teve uma vez que a Big Banda saiu da Fênix e foi pra o Iate, e tinha um grupo de samba que tocava no intervalo, e era uma briga, porque era dois sons, o de samba trazia um som menor, e o da Big Banda era maior. Eu operava o som da Big Banda, mas não operava o do samba, era o Napoleão Junior e o Cucasamba. Aí teve um carnaval que eu fazia o som da Big Banda e ajeitava o sonzinho do Cucasamba, aí ele me chamou e disse: “Dinho, a gente vai fazer um som pra mim, eu quero montar um som”, aí eu montei um som pra ele, a gente até alugou em algumas ocasiões, mas era mais pra o carnaval. Aí eu fazia a Big Banda, e quando eles saiam, eu fazia o Cucasamba, tinha as duas mesas, uma perto da outra, fiz vários carnavais assim, e mandava o sinal direto pra rádio, o Antônio de Pádua, que tem um estúdio, e trabalhava na Gazeta, ou era na Difusora, e a gente tirava o sinal da mesa, botava naquelas maletas e ia via linha telefônica pra rádio.

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DM – Na Big Banda você participou da gravação do Lp Alafrevo?

DO – Não.

DM – Você ficou quanto tempo na Big Banda?

DO – Na Big Banda eu tive dois períodos. Passei um período na faixa de uns cinco anos, depois passei outro período… Mas eu não tinha muito movimento, porque nesse tempo eu não tinha contato com estúdio de gravação, não tinha nem noção de como era.

DM – No caso você não era requisitado nessas épocas de gravação?!

DO – Não. O estúdio naquele tempo não era assim de você pegar o cara e ir gravar. Não. Eles tinham a rapaziada deles, muitos músicos nem tocava, chegava lá e já tinha o grupo deles, eles mesmos gravavam, que ficava mais rápido quando eles faziam o pacote e a rapaziada deles ganhava. Era difícil uma banda, naquele tempo, ir pra o estúdio e eles mesmos gravarem. Não acontecia isso, chegava lá e já tinha aquele grupo do estúdio que fazia a gravação.

DM – Como era a cena cultural em Maceió nos anos 70?

DO – Os bailes eram geralmente nos colégios, o pessoal dos colégios se reuniam e faziam baile, a Big Banda fazia muito debutantes, que era na Fênix e no Iate, era aquele tipo de baile que em Maceió tomava conta, os bailes da parte da elite maceioense. Não tinha ninguém que entrasse, as outras bandas faziam bailes de periferia e do interior. Aqui em Maceió tinha uma casa muito grande chamada Roda Viva, que era um galpão grande, que muitas bandas tocavam, não existia tocada de praia, os restaurantes que tinha na beira da praia que tocavam alguma coisa, era trio de forró, uma coisa bem simples. Na época os grupos de baile que tinha era o Sambrasa, o LSD… E era muito separado os grupos, existia várias bandas que tinham mais contato uma com a outra, outras eram mais separadas, e tinha um lugar onde se encontrava o pessoal dos baile, era no Bao. Bao era um alfaiate, tinha alfaiataria dele, e parece que lá mesmo era a associação dos músicos, e no Vergel tinha um rapaz, que eu estou esquecendo o nome dele, que lelé tinha vários grupinhos, a maioria dos músicos de baile começaram ali, ele botava todos numa sala, ensaiava com todo mundo, ele tinha um sonzinho pequeno, que ele alugava, e ia formando, dali se saía os músicos que iam pra os bailes.

DM – Pra onde você seguiu depois da Big Banda?

DO – Teve uma banda de Caruaru chamada Homens de Ouro, que era muito famosa nos bailes de Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, eles faziam isso aqui tudo, e ela, depois de muito tempo, veio se acabar, e um empresário de lá conseguiu se juntar mais um rapaz, o Paulo, que era dono do cinema Trianon, de Arapiraca, e botou na cabeça dele que era rentável fazer uma banda de baile. Aí ele comprou um equipamento, que era bom na época, e montou uma banda de baile trazendo o pessoal dos Homens de Ouro, que era o Tonho Fuscão, o batera era o Jararaca, Clailton… Eu sei que montou esse grupo e trouxe eles todos, e terminou ficando o Tonho Fuscão, o Clailton, um menino de Recife chamado Carlos… Aí ele me chamou, e a proposta dele de trabalho era direcionada mais pra juventude, pelo tipo de música, e eu fui, não tinha muita coisa a perder, queria é aprender mesmo, aí eu fui pra o Surf 2001. Foi bom, porque a gente fazia excursão pra o Maranhão, Piauí, Ceará, Bahia, passava 2/3 meses na estrada. A gente foi fazer Maranhão, Piauí e Ceará, era quarta, quinta, sexta, sábado e domingo que a gente tocava, aí começou a agradar, porque a gente pegou música de uma cantora de lá, que só era conhecida lá, e começamos a brincar e fizemos outra roupagem, e o pessoal gostava, aí a banda pegou de um jeito que o cara teve que vender as terças-feiras, e a gente só descansava na segunda. Depois de várias excursões, na última que eu participei, que a gente passou três meses, quando foi no último mês, a gente já estava que não aguentava mais, porque lá tinha baile quase todos os dias, porque lá tinha um negócio chamado colocação de grau, as escolas dos municípios e juntava, saía arrecadando um dinheirinho, vendia umas coisas, e fazia a festa, festas baratas, aí dava a estadia e alimentação da gente, e pagava o cachê da banda. Aí quando a gente chegou, perguntaram se podia vender a segunda-feira, e faltava uns 15/20 dias pra gente ir embora, aí os meninos liberaram. Não prestou não, porque a gente tocava a noite, amanhecia o dia e ia pra estrada, aí chegava na outra cidade, montava o som, dormia e ia tocar. Aí tinha um rapaz, amigo meu, aí eu já não montava mais o som, só ligava e operava, tinha duas pessoas que montavam o som, e um dos meninos, teve uma certa vez que a gente chegou numa cidade, terminou o baile, amanheceu o dia, fomos pra outra cidade, chegando lá fomos pra o clube, montamos o som, ia dormir pra poder voltar e fazer o baile. Montamos o som e fomos pra o ônibus pra poder ir embora, chegamos no ônibus, esperamos um pouquinho e nada, cadê, ele chamava Jomanas, que é o Zé Maria, e botaram o apelido nele de Jomanas, a gente esperando e nada, aí eu voltei pra o clube, que era pertinho, pra ver o que estava acontecendo, cheguei lá e estava o Jomanas desmontando o som, porque na cabeça dele estava como se a gente já tivesse feito o baile, ele montou e depois estava desmontando o som. Aí a gente teve que parar ele pra descansar, quase todo mundo estava meio azuritado, perdemos a noção, trabalhar todo dia. Quando a gente chegou em Maceió o Surf praticamente acabou.

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Operando PA “Luciano Som”

DM – Durou quanto tempo?

DO – O Surf durou, acho que uns cinco anos, não durou muito tempo.

DM – Isso já nos anos 80?

DO – Nos anos 80.

DM – Você ganhava bem nessas bandas?

DO – Não. No Surf eu ganhava bem melhor, o dono da banda, o Paulo, gostava muito de mim, confiava muito em mim, tinha meses, na terceira excursão, ele já deixava pra eu tomar conta dessa parte de pegar o dinheiro pra guardar e mandar pra ele. Eu ganhava legal, mas também a gente não tinha visão nenhuma de futuro, era pegar e estourar, a pressa que tinha era pra curtir, pra bar, chegava em Maceió era curtir com as amigas, eu tinha muita amiga nessa época, e o dinheiro que tinha era pra gastar.

DM – Você ganhava por noite, que nem a banda?

DO – Sim, eu nunca quis uma coisa fechada, e naquela época também não tinha, a gente ganhava por noite.

DM – E nessas excursões vocês conheceram só o Nordeste, ou chegaram a ir pra outras regiões?

DO – Não, a gente não passava do Nordeste não. Era até a Bahia mesmo e voltava.

DM – E depois que o Surf 2001 acabou?

DO – Sim, aí eu fui pra o Deodoro. Eu entrei pra fazer o Projeto Pixinguinha, aí o cara perguntou se eu queria trabalhar, não quis, eu faria com contrato com eles pra fazer o Projeto Pixinguinha, eu não quero ser funcionário público, na minha cabeça não tinha esse tipo de coisa de ser funcionário público, de ter uma pessoa mandando e vestindo o cara do jeito que ele queria, era mais a farda. Aí ele ficou assim, mas fez um contrato. Eu fiz um contrato de 90 dias, e quando terminou, eu fui chamado pelo doutor Bráulio, estava rolando uma peça da família dele, chamado Reinações de Narizinho, e o Gustavo Leite, pivetão ainda, me chamou pra fazer a sonoplastia da peça, aí me deram o roteiro direitinho, eu dei uma olhada e fui fazendo, depois eu vi que tinha alguns buracos, aí dei umas sugestões pra o Gustavo, ele perguntou se eu podia fazer, aí eu fiz, melhorei a sonoplastia da peça. No final do contrato eu fui me despedir do doutor Bráulio e acertar tudo, quando cheguei lá ele disse: “olha, meu filho me disse que você não é operador de áudio só, você é um sonoplasta, e ele está precisando de sonoplasta, você modificou a sonoplastia da peça…”, aí ele pediu, mas eu não queria, porque não queria vestir farda, aí ele disse que eu fizesse mais um contrato de 120 dias, se eu gostasse… Aí eu fiz o contrato, quando eu voltei da sala do doutor Bráulio, que eu fui pra dentro do Deodoro, aí o… Trabalhava no Deodoro de maquinista, esqueci o nome dele, ele já estava com a bata pra me entregar, e eu disse que não ia vestir, não fiz contrato com bata não, aí ele olhou pra mim com uma cara feia, aí eu sei que ele veio, conversou comigo e ficou outra visão, me aceitou do jeito que eu era, aí a gente foi se entrosando, e ele ficou legal comigo, e eu terminei ficando 15 anos  no Deodoro. Aí o teatro entrou em reforma.

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“Garota Verão 89”

DM – Como foi o projeto Pixinguinha?

DO – No projeto Pixinguinha que eu entrei, ele mandou eu telefonar pra o Mizoka pra saber quanto era o contrato pra ele vim pra Maceió, porque não tinha som, não tinha PA em Maceió. Liguei pra Recife, pra o Mizoka, e ele deu o preço, aí eu mostrei pra eles, que acharam um absurdo, o cara ia passar um mês em Maceió com o PA. Aí eu fiquei de ver, não tinha som, eu fiquei na porta do Deodoro de braços cruzados e comecei a conversar, e um cara indicou um rapaz na Pedro Monteiro que tinha um sonzinho pequeno e faz umas coisinhas. Era perto da praça da Polícia descendo, em frente a descida era a loja dele, uma loja de conserto de televisão. Cheguei lá, Luciano, foi um dos primeiro PA que teve em Maceió, ele tinha umas caixas meio fora da estética certa do projeto, aí falei com ele, expliquei o projeto, e ele só tinha essas caixas, eu olhei assim, aí voltei pra o Deodoro, cheguei na frente e fiquei, depois fiquei pensando que era de se tentar montar o primeiro som daqui. Aí fui lá dentro, perguntei ao Jonilson, que era o diretor administrativo, “vocês tem condições de pagar 50% pra um cara melhorar um som pra dar pra trazer pra cá?” Ele confiou, aí eu voltei lá com mais de mil, cheguei lá e de primeira eu acreditei no cara, eu disse que conseguiria 50% do contrato pra ele dar uma melhorada, aí ele ficou sem acreditar que eu estava fazendo aquilo, eu sei que peguei um carro na hora e viemos pra o Deodoro, aí ele disse um preço, e o Jonilson pensava que eu conhecia ele há muito tempo, mas eu não conhecia, foi no escuro. Aí ele pagou os 50% a ele e a gente ficou, tinha uma mesa de som no Deodoro, na época de 24 canais, era uma Gianini, mas era 24 canais, tinha microfone Shure SM-57, na época tinha uns 8/12 microfones, e a gente foi fazendo, montando os monitores… Depois que terminou o projeto, tudo o que acontecia no Deodoro de música, que fosse atrás de som, levava o cara lá, e foi crescendo o som dele, aí tinha pra fazer no Deodoro, ele começou a ir pra rua fazer os artistas que chegavam aqui em Maceió, fazer a parte de política de Alagoas todinha, tinha uma época que a gente chegou a dividir o PA, eu fiz o Guilherme Palmeira, e ele fazia o Fernando Collor, quando foi candidato a Governador aqui, com som dividido, e rolou muito dinheiro, a gente ganhou muito dinheiro.

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DM – Antes disso ainda teve uma banda na Bahia que você acabou trabalhando?

DO – Foi a Johnny Maza, mas foi pouco tempo, eu estava no Surf 2001 nessa época, fiquei uns dois meses, foi o tempo até o Surf voltar, eu estava substituindo o operador deles, que nessa época estava doente, e tinha ido pra o Rio de Janeiro se recuperar.

DM – Você falou também que chegou a trabalhar no Grupo Terra, como você conheceu a banda?

DO – O Grupo Terra foi mais pelo Chico Elpídio, mas fiz pouca coisa. Aí quando o Luciano começou a ter o PA foi bom, foi quando eu consegui entrar na vida cultural de Maceió, porque o baile não entrava na parte cultural, era fora. Pode olhar uma coisa, hoje em dia não tem essas bandas de baile, que fazem eventos e tocam tudo, eles não são, culturalmente, se envolvem, porque, acho que não tem trabalho autoral, o pessoal não consegue fazer uma mistura, se eles conseguissem fazer uma mistura, a mesma banda que fizesse um baile, também fizesse algum disco autoral e tocasse… As bandas, meu primo, como era músico de baile, entrou pela primeira vez através de mim no Teatro Deodoro, nunca tinha entrado, quem conseguia fazer essas duas partes, baile e autoral era o Beto Batera, que tinha o Grupo Otis, que era ele, o Carlinho… E era um grupo de rock progressivo, era um outro grupo. Os grupo de baile não tinham essa parte autoral, teve um tempo que o encontro dos músicos de baile era numa loja chamada Universal, na esquina aqui, perto do Deodoro, era assim de músico, 30/50 músicos por dia, falando dos bailes, ali se trocava, você saía de uma banda e ia pra outra, e nesse pessoal tinha gente que nunca tinha entrado no Deodoro, era totalmente separado. E eu consegui entrar na parte cultural quando entrei no Deodoro. Mas pela minha vontade de acertar, de observar muitas coisas, eu cheguei no Deodoro e observava, não tinha aquelas atitudes que se tinha lá fora, que é diferente, tem gente com um PA de rua e bota no Deodoro, aí quer fazer o mesmo som que faz na rua, soltar o mesmo tipo de música que solta na rua, não é discriminando a música, mas você tem que saber pra quem está fazendo o som, qual é a sua proposta, até onde vai o volume daquilo ali pra você poder segurar, você não vai fazer um som no Deodoro pra o pessoal ouvir na rua, você vai fazer o som melhor que tem ali dentro do teatro.

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Eurílio, Eudes “Carlos Moura”, Dinho e João Erisson, anos 80

DM – Como era a cena cultural nessa época?

DO – De artistas que faziam show no Deodoro tinha a Leureny, que fazia show quase todo ano. Eram poucas pessoas de Maceió que entravam no Deodoro, artistas, de teatro não, que era mais… Mas de música. Entrava mais o pessoal de rock, que era insistente, insistiam mesmo e entravam, faziam uma vaquinha, falavam com doutor Bráulio, e terminavam fazendo o show.

DM – Quais eram essas bandas?

DO – Tinha o Odisseia, Poções Mágicas… Tinha mais, tinha umas 4/5 bandas que sempre faziam, entrava, era aquela batalha, e fazia, e era mais no Deodoro, porque o Arena era… Pegava dia de semana, que geralmente sexta, sábado e domingo tinha as coisas mais… Aí pegava terça, quarta, quinta e fazia shows, e tinha um público razoável pra eles. Tinha o Betinho Batera, pequenininho, já todo pulseirado, e eu dava a maior força, ás vezes eles chegavam com as caixas, aquelas coisas da cozinha, daqueles cubos, e a gente saía arrumando, botava microfone num canto, botava no outro, e fazia. Eu aprendi muito, porque vinha muito grupo de fora, assim, cultural, tinha muita coisa de fora, e a gente aprendia, muita coisa boa mesmo, agora não. Num ano a gente sabia já quais eram as bandas que vinham, no ano já tinha aquele leque de atrações.

DM – Agora falando do Gogó da Ema…

DO – Sim, o Gogó da Ema começou assim, eu estava fazendo PA com o Luciano já há um certo tempo, e tinha uns meninos que trabalhavam lá com o Luciano, trabalhavam carregando caixa, era o Vavá e o Carlos Moura, era Eudes o nome dele, Carlos Moura era o apelido, porque ele era tão fã do Carlos Moura, falava tanto nele, que a gente botou o apelido de Carlos Moura. O seu Avelino montou uma banda de baile, e ele fez algumas festas com a banda de baile do seu Avelino carregando as caixas, e trabalhava lá no Luciano, aí teve uma vez que eu estava montando um rolo de cabo, aí ele entrou e disse: “Dinho, eu conheci um senhor, e ele quer lhe conhecer, ele está aí, seu Avelino Torres”, aí ele entrou na sala onde eu estava montando e disse: “eu estou querendo montar um estúdio de gravação, eu fui pra São Paulo, tive contato lá com técnico de som, técnico que monta tudo, mas aí o rapaz que me passou praticamente tudo não está podendo vir, só em dezembro do outro ano, e eu tenho que montar o estúdio no próximo ano e quero lançar os discos de forró que eu gravo, vou pra recife gravar todo ano, já no meu estúdio, você monta?” Aí eu fiquei pensando, eu era doido pra fazer, Deus mandou pra mim o que eu queria, porque eu fazia teatro, fiz PA de rua, e faltava fechar com o estúdio de gravação. Ele disse que já tinha gravador, comprou aqui em Maceió, eu achei meio estranho, ai ele me pediu pra ir no outro dia de manhã no hotel que ele tinha no Feitosa, Hotel Reencontro. Eu fui lá, cheguei de manhã e foi me mostrar o gravador, era um gravador Akai de duas pistas, aí eu perguntei: “seu Avelino, você quer fazer um estúdio de locução?”, e ele: “não, quero gravar meus discos”, aí eu disse que isso aí não dava pra gravar disco não, aí ofereci fazer um levantamento de quanto ficaria pra montar, porque eu fiquei desconfiado, achava que ele não tinha bala, ele tinha mostrado a construção do estúdio, a parte de alvenaria já estava alta, ele mostrou como que era, eu achei a posição do que ele estava pensando legal, que o rapaz passou pra ele, o técnico de São Paulo, certinho mesmo, ele já estava fazendo as metragens certas, mas os equipamentos ele não sabe quanto é que custa, aí eu viria no outro dia e ligaria pra São Paulo pra ver os preços. Eu já tinha contato com um rapaz de São Paulo, que eu comprava materiais nessa loja, e lá também vendia equipamentos pra estúdio, que o rapaz já havia me dito. Aí eu liguei pra ele, que foi me passando tudo direitinho, eu sei que na época não achava que ele tivesse esse dinheiro, como se fosse hoje uns, sem a mesa, uns 150/200 mil. Aí eu mostrei: “olhe, dá isso, mas pode ser mais, esse microfone pode melhorar, isso aqui…” Aí ele olhou e disse: “é, eu tenho uns corinho de rato”, que ele chamava corinho de rato o dinheiro, foi na época que o Fernando Collor tomou as poupanças, teve aquele problema das poupanças, aí ele disse: “é, o rapaz segurou o dinheiro, mas eu tenho um corinho de rato que dá pra comprar esses materiais, diga aí quando você quer ir pra São Paulo”. Aí eu falei pra o Luciano que ia pra São Paulo, que ia montar um estúdio, e tudo bem pra ele. Aí eu me mandei pra São Paulo com ele, a gente comprou o material, veio um bocado, e a gente foi montando, depois ficou vindo, e a mesa de som tinha que ser importado, que não tinha, e era a maior dificuldade pra importar a mesa de som. Aí indicaram pra gente o Rui do Studio R, aí a gente foi na fábrica da Studio R, um cara gente fina, se deu muito bem com seu Avelino, e o que ele podia fazer era montar uma mesa de estúdio pra gente, a Studio R nessa nesse tempo fazia muita mesa de PA, quase todas do Brasil era da Studio R, que ele importava os componentes  e montava essas mesas e vendia. Aí ele explicou direitinho como fazia, e a gente pegou, depois importava a mesa, e assim foi feito. A gente veio embora, eu meti o pau e montei o estúdio. No começo eu não me atrevia a mixar, nem dava pitaco, eu gravava, fazia gravação, aí ele trouxe um menino de Recife, tinha o Duvalle, que trabalhava na Somax, que fazia os discos dele, todo ano ele levava uma caravana e gravava no Recife pra ser lançado, porque o selo Gogó da Ema existia antes do estúdio, o escritório que eu tinha ido era o escritório do Gogó da Ema. Aí a gente começou a gravar, aí a primeira leva teve esse do Cláudio Rios. Aqui eu era assistente de técnico, o técnico de gravação era o Lassi, o Tião Duvalle fez só quatro discos e não deu certo. Não foram os discos que não deram certo, não deu certo ele ficar em Maceió.

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DM – Aproveitando, trouxe alguns discos do meu acervo pra você falar um pouco de como foram as gravações.

DO – A gente começou com um gravador de rolo de oito canais. Seu Avelino era muito ousado pra certas coisas. Com uma faixa de um ano mais ou menos, eu já reclamando pra fazer umas mixagens, botar em dois canais pra poder sobrar mais, falei pra ele de um de 16 canais, aí ele comprou, e já melhorou.

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DM – No caso da Gogó da Ema, ela bancava a gravação e prensagem, ou o artista também entrava com alguma coisa?

DO – No começo não, nos primeiros discos da Gogó da Ema o seu Avelino bancou tudo. Esse disco aqui do José Wilson, Lassi de Morais e Dinho como técnicos de gravação, e o Lassi era o técnico de mixagem, eu não interferia.

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DM – Você fazia a gravação mesmo, acompanhava a banda tocando, todos os passos?

DO – É, fazia toda a gravação, pegava todo… Ia botando as baterias, baixo e guitarra-base, fazia um esqueleto da gravação, depois ia botando os arranjos, botava a voz guia na hora que gravava a bateria, e depois é que botava os outros arranjos, acordeom… No começo foi basicamente forró, era muito forró. Depois foi… Tinha um estúdio do menino, o Paulo Bergo, que era no apartamento dele, mas quando a gente montou o Gogó da Ema, quem foi chegando lá que foi vendo, já era uma coisa profissional mesmo, aí todo mundo foi correr pra lá. Esse negócio do forró, o forró foi ficando bem menos do que… Quando entrou o Messias Lima, ele foi no começo mesmo, a gente uns 4/5 discos lá dele. Nesse eu fui técnico de gravação, a mixagem foi em Recife, já esse foi mixado no Gogó da Ema.

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Esse aqui da natureza (Avelino Torres) foi engraçado, tem uma parte que a gente estava gravando a voz do seu Avelino nessa música “A Natureza Chora”, e ele só chamava “prumão”, a gente tentava emendar e nada, toda vez só falava a mesma coisa, aí o Xameguinho teve a ideia, falar pu, como se fosse um soco, e mão (pulmão), aí foi que entrou certinho. Seu Avelino foi como um pai pra mim, eu aprendi muita coisa com ele, o povo achava que tinha ignorância, mas eu vi muita coisa por trás, eu viajava muito com ele, a gente ia pra o interior. A gente quando viajava, toda vez a banda de baile ia na frente, e a gente ia ver a banda dia de sábado, aí a gente via a banda dele tocar, e quando voltava ia tomar café da manhã na feira, aí entrava pelas feiras de Maribondo, pelas feiras ali dos municípios. Eu gostava muito de miniatura de carro, ele também gostava, quando a gente ia pra São Paulo era uma festa, a gente chegava num local perto da galeria Pajé que o cara vendia miniatura, e já tinha os banquinhos onde a gente sentava, aí ele dizia: “esse aqui tu compra, e esse aqui eu compro, pra os carros serem diferentes, um não ser igual ao outro”, aí o cara aproveitava que a gente ia comprar muito carrinho e trazia uma mala cheia de carro. Sempre tinha uma feira de música em setembro que a gente ia pra ver equipamentos.

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DM – Esse aqui já foi um desafio.

DO – Foi, esse aqui foi um desafio (Morcegos), mas foi muito legal de fazer, os meninos eram gente fina, e a gente fazia o que podia. Esse tem uma coisa engraçada, tem uma música aqui que é bem pequenininha, aí tinha um neto do seu Avelino, pivetinho, entrou no estúdio e sentou num canto e ficou ouvindo a gente gravar, e a música era segundos, tocou e pronto, aí quando fez aquele silêncio no intervalo, o menino levantou, olhou pra gente e disse: “eita, não dá nem um pulo”, foi uma onda.

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DM – Qual foi a grande dificuldade pra gravar esse disco em relação aos discos de forró?

DO – É porque com os discos de forró tinha toda uma estrutura financeira do seu Avelino, e nos outros discos tinha condições, mas alguns a gente via que o cara não tinha condições de pagar, tinha gente que nem sabia como gravar, achava que era de uma vez só, a gente pegou muita gente assim, achava que era só chegar no estúdio, montar a banda e pronto, acabou, não tinha que mixar, masterizar, gravar bateria, depois as guitarras… Mas a gente já gravou com outras pessoas legais, teve o Living in the Shit, aí é outra história, o primeiro disco do Everaldo Borges foi gravado lá, e mixado no Estação do Som. Milton Souza, que é muito parecido comigo, meu irmão, a esposa dele disse que na festa de Cosme e Damião vai ficar nós dois juntos na porta. Foi muito bom, aqui eu já estava mixando, direção artística do Antonio Jacinto, gente fina, bom de trabalhar, lançou discos do Zinho, Cláudio Rios. Xameguinho era o nosso maestro na parte do forró. Esse disco aqui era dois em um, um lado Xameguinho e o outro o Ismael de Castro, a gente botou o Xameguinho pra cantar, mas não queria cantar de jeito nenhum, mas terminou cantando, fazendo cinco músicas. Xameguinho é meu amigo do coração, até hoje, gente fina, pessoa boa, fiz algumas gravações no estúdio dele, começamos numa salinha pequenininha.

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Tinan Rodrigues, é engraçado gravar com Tinan, a gente ria o tempo todo, teve uma vez que a gente foi botar a voz dele a noite, ele entrou no estúdio e foi lá pra o aquário, aí ficava por lá, vinha pra cá, ia pra lá, depois eu ouvi a voz dele ficando grossa, achei estranho, foi falar pra ele que não daria pra gravar mais naquele momento, quando abri a porta, estava lá o litrão de conhaque com três dedos, ele tinha tomado quase todo, e a gente pensando que era água, via ele botando no copinho e tomando, era o que, era o conhaque. Era gente fina, era uma festa.

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DM – Eu queria saber como fora as gravações desse que foi o primeiro Lp do Juvenal Lopes.

DO – Rapaz, eu fiquei tão triste como ele era tratado, eu gosto muito dele. Ele descia ali na rodoviária, vinha arrastando o chinelinho, a gente o cumprimentava, ele subia a escada do Gogó da Ema, ficava conversando, isso a gravação estava marcada pras 19 horas, a gente ficava conversando, dava sete e meia, dava oito horas, oito e meia da noite o telefone tocava, “dá pra eu ir não, só vai gravar amanhã”, descia ele com a chinelinha, pegava o ônibus… Deu tanto pra arte musical alagoana pra no final da vida ser tratado desse jeito.

DM – Quem foi que bancou essa gravação e a prensagem?

DO – O governo do Estado.

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DM – Você tinha algum envolvimento pra mandar prensar esses discos, ou já era outro setor?

DO – Não. Era outro setor. Esses discos eram prensados… Seu Avelino fez amizade com um rapaz, que era da CID, mas eu não gostava, não sentia brilho. Ele tinha um escritório em São Paulo que ele mandava pra lá, aí eu comecei a medir as coisas, já no tempo do DAT, a gente mandava o DAT pra lá e eles masterizavam e faziam a prensagem, mas eu não gostava. Teve um vez que eu fiz um disco e guardei o DAT no arquivo, quando ouvi tocando o rádio, oxe, não foi isso que eu fiz, estava sentindo que estava faltando, tinha uns instrumentos meio baixos, como se tivesse gravado um canal e aberto pra dois, e os instrumentos que estavam mais presentes naquele canal que não estava, ficava só aquela parte de reverb. Aí eu fiquei desconfiado, e disse pra o seu Avelino, a gente ia pra São Paulo, peguei o DAT, perguntei onde era a masterização, ele me disse onde ficava, e a gente foi pra São Paulo e bateu lá no escritório. A gente conversou com um rapaz, atendeu muito bem, aí seu Avelino disse que eu queria conhecer a sala de masterização, o cara ficou assim, mas pegou o telefone e disse que o técnico ia me levar lá. Aí eu desci com o cara, a gente estava no décimo andar e o negócio era no sexto. Fomos na sala de masterização, quando cheguei lá, que sala de masterização o que, era um quarto sem tratamento nenhum, um cara no computador, um bocado de fita DAT de lado, o cara disse que fazia 10/15 trabalhos por dia de masterização, aí eu perguntei que programa ele usava, ele falou que country, forró e outros era essa equalização, rock e outros era essa… Eu saí, aí o seu Avelino perguntou como foi, ainda lá, aí eu disse que tudo bem, aí conversa vai, conversa vem, quando a gente saiu, eu disse: “seu Avelino, o cara está desgraçando os discos que passam por aqui, mande mais não, a gente faz o trabalho lá e ele tá destruindo aqui, esse negócio é uma batalha do caramba pra fazer, e mandar pra uma masterização dessa, isso não é masterização, o cara acaba com que está sendo feito, a sala não tem tratamento, é cheia de reverberação, ele faz 15 masterização por dia…” Tem dia que não dá pra fazer uma bem feita, num Cd com 15 músicas.

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Avelino Torres, Dinho, Jaime e Rui, Studio R, São Paulo

DM – Qual foi o auge e a queda do estúdio?

DO – Teve um auge daqueles forró eletrônico, era tanta banda que as vezes eu esquecia, botava uma, mas era outra, porque era muita banda. Aí se entrou muito dinheiro. Depois que deu uma caída, seu Avelino me chamou, a empresa Gogó da Ema mesmo está no nome do Elias, filho dele, e queria botar ele pra administrar pra ele fazer alguma coisa, seu Avelino ia observar de fora. Aí foi a queda, porque ele também não ficou de fora observando. Aí o seu Avelino montou um trio, e através de um amigo meu, eu tinha feito uma montagem no Doce Veneno, e ele tinha feito vários desses blocos que tinha na beira da praia, Maceió Fest, e a gente montou esse trio, e o seu Avelino trouxe o rapaz da Doce Veneno, que era motorista, aí começaram a comprar as coisas, montar as ferragens, montou um ônibus de som e foi fazer festas, e numa dessas festas, a gente estava fazendo Sergipe, e esse Carlos Moura, que eu falei no começo, estava trabalhando com seu Avelino, e ele era muito colado comigo, gostava muito de mim. Aí a gente estava fazendo Sergipe, e tinham marcado uma coisa com Alberico Cordeiro aqui a beira da praia, e eu fiquei de fazer uma manutenção, aí levamos pro terreno do Gogó da Ema, deixamos tudo legal, e um menino que trabalhava comigo, tinha um negócio pra ir com esse trio pra Riacho Doce, eu disse: “bora, a gente vai, passa o som e depois eu venho embora”, porque eu estava tomando um remédio, que tinha que tomar na hora certa, e estava em casa, eu estava morando no Dias Cabral. Eu fui pra essa festa, passei o som, a gente ficou lá brincando, e os encarnando comigo pra eu ficar na festa, mas eu tinha que voltar pra casa, porque tinha que tomar esse remédio. Fiquei até 19 horas, o motorista, o Zé e o Carlos Moura me levaram até o ponto do ônibus e ficaram encarnando pra eu ficar na festa, só sei que eu terminei pegando o ônibus e eles voltaram pra lá. Quando foi de manhã, Elias de manhãzinha chegou lá em casa batendo, quando abri a porta, ele disse que acontecido algo, o trio tinha sido praticamente metralhado, e o Zé e o Carlos Moura tinham falecido. Isso me abateu muito, e abateu muito o seu Avelino também, ele ficou desgostoso, e eu perdi esses dois amigos que não tinham nada de violência, e o Carlos Moura, esse, meu Deus, eu nunca iria pensar que aquele menino iria morrer por lance de violência, o negócio dele era estar perto de som. O seu Avelino saiu mais dessa parte de som, nem administrar direito o hotel ele estava, ele ficou se sentido como se tivesse sido o responsável. Aí ficou com o Elias a Gogó da Ema, e ficou sem o apoio dele, aí foi diminuindo, o Elias é meu compadre, padrinho da minha menina, e eu fiquei numa situação, não ia deixar ele sozinho, abandonar o barco, ia tentar fazer alguma coisa. Passei cinco anos ainda com ele tentando fazer alguma coisa. Aí teve um dia que eu pensei, minhas economias já tinham ido tudo embora, porque estava com pouco dinheiro, e eu tinha que manter, mas não iria prejudicar a minha família, no dia certinho, peguei a chave e cheguei pra o Elias: “não dá mais, acho que vou abandonar o barco, fica aí com tudo, não precisa nem pagar nada”, aí ele disse: “faz uma semana que eu estou pensando nisso também, como eu ia chegar até você”. Aí a gente se abraçou, seu Avelino já tinha falecido, choramos um bocado, olhando pra o estúdio, foi quando eu entrei no estúdio pela última vez.

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Operando o trio Gogó da Ema

DM – Foi em que ano?

DO – Tá com uns seis anos que eu estou aqui de volta, acho que por aí, um 6/7 anos. Mas eu sempre fazia muita coisa do balé, das coisas, e sempre ficava no teatro, e todo mundo gostava de mim. Teve uma vez que eu cheguei pra fazer um negócio aí, o Alexandre me chamou, depois de um tempo voltei, estou até hoje. Graças a Deus tudo o que eu sonhei em fazer na parte de som eu fiz, eu peguei a primeira mesa analógica maior pra banda, peguei a primeira mesa digital que entrou aqui em Alagoas pra estúdio, montei o primeiro estúdio de gravação profissional, trabalhei dentro do estúdio, que era meu sonho. Agora eu adoro sonoplastia, trilha, som de dança, é o que eu estou fazendo. Música me acalma, tudo pra mim é música, ela me deu tudo, me deu a paz, deu um caminho, me envolvi muito com bagaceira, mas graças a Deus eu consegui passar, tenho problemas hoje decorrentes disso, do mal uso que eu fiz do meu corpo, mas fora isso… Eu agradeço tudo a música, tenho bons amigos de gravação, de PA, tem os novo que estão chegando que faz som, os que não me conheceram, vai me conhecer aos poucos. Eu adoro, tudo o que eu quis fazer, acho que eu fiz. Nunca tive vontade de sair da minha terra, de ir pra São Paulo, ficar por lá, acho que isso não é vitória. Vitória é a gente ficar no nosso lugar fazendo o possível pelo que a gente tem, e ser feliz assim.

DM – Queria agradecer, em nome do blog, por essas histórias, pelo seu tempo. Obrigado.

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Sobre Clube do Vinil de Alagoas

Amigos com uma paixão em comum: música. De preferência analógica.
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